Um coração para Heloísa

Leia o depoimento de Lidiane Aleixo, mãe da Heloísa, uma bebê que esperava por um transplante de coração que, infelizmente, não chegou a tempo. A partida de Helô tocou a vida de muitos. Apesar da dor, hoje, Lidiane é voluntária da Tempo de Brincar. Com amor e generosidade transbordantes, ela vai ao hospital em que a filha faleceu para ajudar outras mães na mesma situação.

"Como em toda gestação, em que não esperamos que nada de ruim aconteça, na da Heloísa não foi diferente. Foi uma gestação muito desejada, mas que nos primeiros exames nos trouxe preocupação. No primeiro ultrassom morfológico, ficamos sabendo que nossa filha teria uma alteração cardíaca, mas que só aos 6 meses de gestação saberíamos ao certo o que seria. Nesse meio tempo, realizei alguns exames para avaliar se nossa bebê teria alguma síndrome, e algumas já foram descartadas.

Assim caminhamos assustados, porém cheios de esperança de que não seria nada demais, até os seis meses de gestação. Após alguns exames que não concluíram bem o que tinha o coração de nossa filha, ao procurar uma especialista em São Paulo tivemos o diagnóstico preciso que Heloísa tinha miocardiopatia hipertrófica. A partir daí, nossa vida tomou rumos bem diferentes do planejado.

Eu tive que me mudar para São Paulo aos 8 meses de gestação, provisoriamente numa pousada, para aguardar o nascimento de minha filha em segurança e próximo ao hospital. Sabíamos do grande risco de perdê-la após o nascimento, porque o caso era muito grave. Para minha família tudo era novo, um assunto desconhecido até então, sem casos semelhantes na minha família e na de meu esposo. Fui atrás de todo suporte para minha Heloísa nascer bem e, mesmo com medo, procurei ser forte porque também tenho outra filha, Maria Clara, atualmente com 8 anos.

Enfim, chegou dia 05/05/2014, com todos os medos e, ao mesmo tempo, com a alegria de receber nossa filha. Para nossa surpresa e a dos médicos, ela nasceu muito bem, dentro de um hospital especializado em cardiologia infantil. Olhar minha filha gordinha, rosada e chorando foi a cena mais linda, aliviando meu coração de mãe. Mas por precaução, dali ela foi encaminhada para a UTI Neonatal. Conhecer uma UTI Neonatal não é fácil: olhar o semblante das mães, pais e familiares e enxergar dores, aflições e esperanças junto com o cansaço. Barulhos de máquinas, horário limitado para ficar com minha bebê, perfurações... eu só queria tirá-la de lá e pegá-la no colo.

Lá ela permaneceu estável com a medicação, fez muitos exames, alguns até encaminhados para fora do país. E com muita alegria, após longos 11 dias de internação tivemos a tão sonhada alta para casa. Que imensa alegria, que milagre! Medicada e acompanhada pela cardiopediatra, fomos para nosso lar, encontrar nossa família e amigos.

Em casa, nossa bebê era uma criança muito tranquila, mas começou no decorrer dos dias a não mamar muito. Sentíamos que ela estava mais cansada e sua respiração não estava normal. Assim, aos 44 dias de vida, ao chegarmos no hospital da região que moramos, Heloísa teve uma parada respiratória, de imediato foi atendida e encaminhada para a UTI. Conseguimos contato com a médica dela e após algumas horas nossa filha foi transferida para São Paulo. No dia seguinte, tivemos a notícia que o coração da Heloísa estava sobrecarregado, pois ela havia crescido e ele não conseguia fazer o trabalho necessário. Uma cirurgia seria um enorme risco e não resolveria o problema por completo, então a médica nos disse que nossa filha precisava de um TRANSPLANTE. Meu Deus, uma bebê de 44 dias precisava de um pequeno novo coração! Ali, eu perdi o chão. Foi muito difícil.

Os dias se passaram e nossa única alternativa era sermos fortes. Com a ajuda de um amigo fizemos uma campanha na internet chamada UM CORAÇÃO PARA HELOÍSA. Nessa página no Facebook contávamos a história de nossa filha e, dessa maneira, tentamos conscientizar o máximo de pessoas sobre a doação de órgãos. Assim, esperávamos um coração para nossa filha. Muitos amigos ajudaram a divulgar, bem como nossa família e desconhecidos. Tínhamos mais de 22 mil pessoas na página do Facebook.

Dentro dos 3 meses de internação na UTI, Heloísa precisou ser transferida de hospital e foi mais uma batalha carregada de medos e também anseios pela melhora de nossa filha. Dias difíceis, outros mais leves, cheios sempre de esperança e atenção ao telefone da UTI cada vez que ele tocava, esperando que fosse o novo coração chegando. Sonhei com esse momento, planejava esse momento, mas cada dia minha filha ficava mais debilitada, cada vez eram mais perfurações, cateteres, sondas, fios e eu não conseguia mais lembrar de como era segurá-la no meu colo.

Houve uma oferta de coração, mas infelizmente num momento que ela não pode receber por complicações no intestino. Mais uma vez fiquei sem chão, sem fé, sem esperança. Aos poucos tudo voltou, mas nossa história terminou sem um novo pequeno coração, sem nossa filha...

Muito aprendi, descobri um novo mundo onde tudo pode acontecer, conheci muitas pessoas, senti muitas coisas que jamais havia imaginado sentir, sofri, chorei, me desfiz e parti junto com minha filha. Hoje estou aqui, sem um pedaço de mim, com a história dela, com minha família e aprendendo ao longo de minha vida com essa experiência. E que com ela eu possa ajudar outras pessoas que desconhecem o mundo dos cardiopatas.

Para sempre, UM CORAÇÃO PARA HELOISA."

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